sexta-feira, 5 de março de 2010

Gente!!! vejam que texto recebi!!!!....pura alegria....

uma ótima crítica à Antologia ME 18!


(Leonardo de Magalhaens escreveu:)


Sobre a ANTOLOGIA ME 18
organizada pela poeta Tânia Diniz
(Mulheres Emergentes, BH / 2007)


Fragmentos e testemunhos da Voz Feminina

Acreditando que Poesia não é apenas sentimento, mas é construída por sentimento e algo mais – elaboração da linguagem, do discurso, das múltiplas leituras, etc – na valorização de uma Voz que se expressa para um Outro (espera-se sempre um Leitor) e na superação da Carência e da Incomunicabilidade, nossa atenção aqui se volta para a Poesia de Voz Feminina.

Uma antologia a demonstrar um interesse de coletar poemas que possam expressar o que se designa como 'Voz Feminina', não apenas no sentido de ser poesia escrita/declamada por mulheres, mas pelo conteúdo simbólico a expressar sentimentos, intimidades, confissões, idealizações amorosas, erotismo velado/ sugerido, pornografia, ou mesmo 'feminismo' (no sentido político de militância pelas igualdades de direitos entre homens e mulheres)

Num mundo onde a mulher é ainda enganada, humilhada, perseguida, esmagada, violentada, transformada em objeto, em pleno século 21 de domínio ocidental (dito cristão e liberal), quando a esperança de uma igualdade – seja política ou econômica – torna-se apenas mais uma mercadoria à venda no mídia, é deveras importante manter viva a Voz discursiva em defesa da legitimidade da luta das mulheres em prol da plena dignidade e vida segura.

Ao lermos os poemas desta Antologia Mulheres Emergentes 18, percebemos que a mulher confessa um sofrimento que vem de duas fontes, uma externa, de conflito com o Outro – o amado, os filhos, a família, etc – e uma interna, os descompassos entre o idealizado e o realizado, o mundo/o sentimento que ela sonhou e o que realmente aconteceu, gerando toda uma quebra de expectativas, uma frustração/ depressão.

Esta carga dupla, estes fardos dentro e fora que a mulher carrega gera todo um complexo de infelicidades que levam os homens a se vangloriarem de serem homens. Há um pensamento chinês – anterior a Revolução – que traduziríamos assim: “Nenhum orgulho em ser homem, mas orgulho de não ser mulher” . Produto óbvio de uma civilização 'machista', diríamos, onde a mulher era criada sob opressão, sofrendo até deformidades corporais (os pés eram propositalmente atrofiados!) Mas espelha todo um sentimento de estar livre de um (ou dois) sofrimentos a mais.

Nestes poemas se diluem o medo de amar, o medo da rejeição, a insegurança no amor, no relacionamento (seja namoro ou casamento), a idealização do Ser Amado, o sofrimento da perda, a insatisfação erótica, a repressão da sexualidade, as múltiplas tarefas (mãe, esposa, trabalhadora), ou seja, todo um quadro que extrapola a Poesia ao se desvelar no ato da Escrita. Pouco experimentalismo com a Linguagem, e mais a Confissão.

Meu amor comprimido
se recolhe pequenino
no canto da sala
intimidado
oculto

(Andreia Leal / Mariana/MG)


Um sentimento que não se desenvolve (e se deforma) devido aos vários medos – da rejeição, da sujeição, da perda, da traição – que imobiliza o acesso ao Outro,

O medo
narrativa sem descanso, sem descanso
em remoinho em rumorejos
em sobrevôo em sobre nadas

(France Gripp / BH/MG)


Quando é um sentimento que é confessado, aqui liricamente, e atinge a emoção, por identificação (se for lido por outra mulher a sofrer o mesmo) ou compaixão (se o leitor não sofre disso, e se apieda de quem sofre) Entenda-se que não falamos extamente da Autora. Pois o enfoque é a Voz que confessa, o Eu-Lírico.

Assim pode confessar, velada ou desveladamente, encontrando na arte verbal uma forma de 'aliviar a dor',

A poesia retoma ao giz-de-cera
De uma infância de cores
para aliviar as dores
De quem nesta arte
Será sempre aprendiz.

(Brenda Mars / BH/MG)


Mesmo que exista muita idealização da Poesia e do/a Poeta, aquela imagem romântica ou parnasiana, no mundo das névoas ou na torre de marfim. Enquanto alguns defendem a Poesia enquanto retrato e testemunho do mundo de misérias e carências, injustiças e dominações, outros esperam a Poesia enquanto fantasia, utopia, fuga/escapismo do mundo de insatisfações,

Ser poeta é habitar um mundo diferente
É ter dentro de si a própria fantasia
É gurdar no seu peito esse desejo ardente
De viver na ilusão sublime da poesia

(Eliza Ramos Amaral / SP/SP)

Quando não se idealiza o fazer poesia, idealiza-se o Ser Amado, ou se ironiza o mesmo ser quando a frustração desfaz o jogo de máscaras,

Percebia seu medo de se entegrar e não conseguia mais
parar de pensar naquele príncipe nada encantado.

(Ana Carol Diniz / BH/MG)

então a ironia não passa de 'defesa psíquica', o famoso 'rir para não chorar', ou uma amargura contra as 'sacralidades' que perpetuam a opressão,

Então
O masculino Senhor disse:
Vai, Eva, e nutre a vida,
com o suor dos teus sonhos.
Não te esqueças, mulher
que inventaste o amor
e isso é imperdoável.

(Maria de Lourdes Horta / Recife/PE)

Muitos poemas germinam sugestões mais do que descrições, há toda uma preferência em sugerir mais do que descrever, em provocar sinestesias do que explicar, em evocar inexistências do que problematizar o existente, em falar mais do indivíduo do que situar o social, o coletivo (nosso individualismo que o diga...) Tal preferência lembra muito as temáticas das poetas de renome, amplamente divulgadas, p.ex. Cecília Meireles, Cora Coralina, Henriqueta Lisboa, Hilda Hilst e Ana Cristina César, ou as traduzidas obras de Gertrude Stein, Sylvia Plath, Anne Sexton, Elizabeth Bishop, Marianne Moore, Gabriela Mistral, etc, que prezam mais o Eu do que o Social, o Texto mais do que o Contexto.

As temáticas se aproximam ainda mais na densidade dos poemas em prosa, que unem a tessitura do prosaico com a imagética do poético,

Ainda trêmula pelo último frêmito, ela se acalma. A
pele, em lento e decrescente calor, exaurida, se
apaga. A alma, leve como pluma, envolve-se em
nuvens de cetim. Volátil, flutua num sono feliz.
Esquecendo-se, porém, de apagar seus desejos de
mulher, ela desperta, iluminada pela luz do próprio
olhar. (...)

(Lívia Tucci / BH/MG)


ou uma carta de desamor, 'gelada' e áspera, a desconstruir o afeto,

Caro senhor,

Tempos atrás conseguíamos despertar desejos um no
outro. Hoje isso já não acontece mais. Quando viro para o
outro lado da cama, o senhor vem com seu braço de
chumbo e o coloca sobre meu corpo, que sábio que é
o rejeita e depressa volta à forma de pedra. Jeito sutil
de mostrar sua indiferença já quase antiga e crônica.
(...)

(Iara Alves / BH/MG)


Ou uma poesia imagética a evocar obras das artes plásticas, num conjunto de cores e formas, que as palavras procuram decodificar – apenas para gerar outra codificação...

Branco é o luar
derramado no mar do Prado.
Branca é a nuvem
que se estende no céu claro de
verão
entre as palmeiras e a casa
em construção
na areia.

(Nazareth Fonseca / BH/MG)


Ou poemas que sugerem uma viagem, um voo de ave, um teletransporte, um sopro de vento, um mapa cartográfico de Pasárgada, um devaneio de mundos-outros,

Mudei minha rota:
Agora sou gaivota
Sobrevoando o mar.

...

O meu voo é leve,
Virei ave viajante,
Com uma linguagem tão forte
Que abre portas no céu.

(Raquel Naveira /Campo Grande / MS)



Mudar completamente!
Transformar a paisagem,
ferir com o grito
velhos amores.
Destelhar abrigo inseguro,
partir fios, galhos e flores.

Sou como o vento.
Ante o estabelecido
provoco movimento.

(Silvana Pagano / BH/ MG)


Encontramos também uma amostra de quase-tradução, nos poemas 'bilíngues' de Silvia Ansprach (SP), onde a beleza de cada poema é criada na linguagem (o idioma) de cada poema (não traduzidos, mas versões do mesmo tema) Pois a Tradução seria mesmo Traição (“tradutori traditori”, tradutores traidores), sabendo-se que ora se preserva o sentido, e perde-se a sonoridade, ou vice-versa, temos o som e não os significados... Aqui, os mais 'próximos' seriam “Geminal e Seminal” e “Geminal and Seminal”, que abordam as obras de Clarice Lispector e Virginia Woolf, figuras ímpares e significativas da Voz Feminina, com direito a uma referência ao poema hermético de Gertrude Stein (“rose is a rose is a rose...”), emblemáticos na Antologia Mulheres Emergentes 18, que se destina a recuperar e proclamar a expressão artística verbal da mulher,

“Ambas desafiam o verbo,
desfiam a linguagem,
rosário de poesia
em prosa
e glosa.”

“Both defy wor(l)ds,
defile language
in prose
primrose (is a rose is)”

(Sílvia Anspach - SP -SP)

fevereiro de 2010- Belo Horizonte - MG

Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com
http://desencontrosgrafados.blogspot.com

2 comentários:

Eu por Quitéria di Genaro disse...

Oi, Vi os cartazes na UFMG, achei ótimo...Parabéns pelo lindo trabalho, agora te sigo com meu blog...JackLigiero

Tânia Diniz disse...

OI, LINDA! MUITO OBRIGADA. ESCREVA SEMPRE.BJINS,
TÂNIA