quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

17 janeiro 18  Quarta

A alegria de relembrar...

'A Murilo Rubião, criador do "Realismo-Fantástico", a homenagem de seus colegas.'

Essa é a dedicatória que abre o livro Flor de Vidro, antologia de autores mineiros categoria / contos.

Editada em 1991 pela extinta Editora Arte Quintal Ltda, em BH, tem capa 
de Yara Tupinambá.

 
"Pela primeira vez uma antologia de contos mineiros reúne escritores de quatro gerações.
Nomes e contos que honram a literatura mineira brasileira contemporânea.
Um panorama eclético da estória curta mineira.
Realismo- fantástico, Pop, Erótico, Impressionismo, Pós-Moderno: o salto quantitativo da shorty-story feita em Minas Gerais dos anos 40 aos 90."

Diz a quarta capa, além de elencar os participantes.



Com muita honra, estou na página 291, com um dos meus continhos do realismo mágico (abaixo), homenageando Rubião, que tanto me apoiou

  • Vejam o que disse numa carta de apresentação:

"(...) Com um livro de contos publicado, Tânia é editora de um jornal de poesia e figura expressiva entre os jovens intelectuais mineiros. (...) "

Murilo Rubião, em carta de apresentação / agosto de 1990.   

 
Ilhada 

Ele começou por censurar-lhe as velhas amizades de infância. Encolheu-se e, confiante nele, cessou de cultivá-las. E por acréscimo, as outras. Percebeu apenas que a pele tinha então menos viço e os cabelos se tornaram meio quebradiços.
Querendo consolá-la, ele deu-lhe uma lista de pecados para ler.
Mais tarde, cortou-lhe o prazer da dança. Essa diversão antiga não lhe ficava bem.
Confrangida, crendo nele, deixou os gestos leves, a figura tornou-se mais pesada, caíram-lhe alguns tufos de cabelo. 
Por amá-la, não quis que o sol lhe estragasse a pele (já sem tanto brilho), e ela deixou de frequentar piscinas e praias, o convívio social.
Bem intencionado,, não quis mais que ela ouvisse música, as altas frequências poderiam ferir-lhe os delicados tímpanos. Curvou, a mais esse cuidado, sua silhueta meio murcha. Alguns dentes se abalaram.
Tirou-lhe os livros para não cansar-lhe a vista. Seus olhos perderam a cor.
Não quis mais que atendesse ao telefone pois, o tempo precioso era-lhe tomado em ouvir pessoas. Sangrar poemas em folhas de seda tirava-lhe o fôlego e, temeroso por sua saúde, desaconselhou-a.
Tão debilitada após tantos cuidados, preocupada com tanta dedicação, não tinha forças para reagir e, sem reações possíveis, diante do olhar consternado do esposo, desintegrou-se.
                                              tânia diniz